Herança do Amor - Capítulo 10

Pov. Anastacia Steele

O meu primeiro dia de trabalho até estava indo lindamente. É certo que ainda não havia tido oportunidade para manter maior vínculo com as crianças, por simplesmente já terem saído para o colégio cedo quando cheguei.

Como não tinha nada para fazer e não nasci para ser madama em deitar igual lontra nesse sofá gracioso diante meus lindos olhos, decidi fazer companhia para Gail e oferecer uma mãozinha com algumas tarefas domésticas e assim conhecer melhor esse apartamento. Enquanto ela ficava cuidando da roupa na lavandaria, fui até ao primeiro andar cuidar dos quartos e não consegui não rir com o detalhes que os diferenciam tanto um do outro.

Bom o quarto de Theodore é todo organizado, diria que ele próprio sabe arrumá-lo ao seu jeito, já o de April é uma verdadeira bagunça de bonecas pelo chão, ursos de pelúcia sobre a cama e roupas espalhadas nos pequenos puff's pink, ao qual dá impressão de que a bagunça começa bem cedo ao acordar.
 Após deixar tudo mais ou menos arrumado, Gail me levou para conhecer outros cantos dessa cobertura. Abrindo porta por porta e ai achei uma biblioteca grandiosa com uma mesa no cantinho de leitura, candeeiros iguais ao da faculdade onde estudei em New York e sofás de couro escuro no centro dando um ar estudioso ao espaço silencioso. Numa outra sala havia uma mesa de sinuca e uns jogos dispostos de tabuleiro que deduzi que seria onde os mais pequenos passavam grande parte do tempo em suas horas de lazer. Mais ao lado havia um outro quarto, vazio de cor, com uma cama bem arrumada e todo o espaço em si era em tonalidades de pastel. Um verdadeiro quarto do céu de tão imaculado que é, sendo que até senti receio em entrar nele e sujá-lo com os meus próprios pés.

— Se alguma vez necessitar de dormir cá, esse será o seu quarto, Anastacia! - informa ela com um sorriso breve nos lábios finos, olhar azul meigo.

A outra porta no fundo do corredor estava trancada e nem mesmo Gail me soube dizer o que continha no interior, nem o motivo de estar assim, somente encolheu os ombros e descemos para o andar inferior. Foi ai que conheci o quarto de suite master de Christian Grey, o meu chefe e fiquei visivelmente absorta encarando a tela gigante que existia sobre a cama. Um casal feliz se abraçando em um dia de final de tarde à beira mar. Até as lágrimas me vieram aos olhos sem compromisso.

Com isso tudo são agora 12:30, a chegada hora de almoço. Novamente me ofereço para fazer alguma coisa, mas Gail ordena para que sente e observe, porque na cozinha quem manda é ela. Juro que ri com essa sua faceta e desde logo comecei gostando dessa mulher tão afectuosa. Ela realmente é encantadora e seria uma ótima candidata a parceira para o meu pai se Deus não o tivesse levado de mim tão cedo, pois iria gostar de tê-la como minha mãe.

Quando terminou a confecção do almoço, sentou e começamos uma troca de ideias. Foi somente nesse momento que ela começou contando a história da mãe das crianças e o que havia acontecido com Olivia. Confesso que fiquei bem impressionada e com os olhos rasos d'água ao imaginar aqueles dois seres adoráveis sofrendo tanto e tão novos. Quando a própria infância deve ser vivida de felicidade e inocência, não de dor e perda.

— Muito triste isso... - sussurro num fio de voz ao levar o copo de suco aos lábios e tomar um golinho simples.

— Não imagina o quanto, Anastacia! Tem sido dias de um verdadeiro inferno. - Gail suspira pesado ao se servir com uma porção de comida e eu pouso o copo. - O senhor Grey tem sofrido demais com a falta da esposa. Julguei que ele nunca mais ia se restabelecer e sair dessa casa para ir trabalhar. Ele se fechou para o mundo, sabe? Isolou até dos próprios filhos e começou a se perder no álcool dia após dia. - desço os olhos ao meu prato e mexo o garfo brincando com a comida. - Agora o problema não é o álcool, são as noites que vira gritando com terríveis pesadelos ou simplesmente a quebrar tudo dentro do quarto. - sinto um nó no meu peito ao imaginá-lo desolado e quebrado por dentro. - Ele já tinha pesadelos antes, mas a morte da doutora Olivia intensificou tudo e depois nem Taylor, nem eu sabemos como agir nessas situações.

— Como assim? Quem é Taylor? - arqueio ambas as sobrancelhas largando o garfo.

É certo que me falaram uma vez que devemos tomar cuidado com o modo de como acordamos uma pessoa que está sucumbindo em um pesadelo, para não criar traumas futuros.

— Taylor é o segurança pessoal da família e motorista! - diz ela. - O senhor Grey não gosta de ser tocado em certos pontos do seu corpo. - esclarece ela. A minha boca curva um pouco em espanto. - Com os filhos é diferente, ele acabou por criar uma barreira e o toque deles não o "machuca".

Meu Deus então aquele homem também tem um passado traumático quanto o meu? Coitado, ele não merece isso. A vida é mesmo cruel.

— Mas porquê? - atrevo a perguntar.

Não sei porque isso está me interessando tanto, mas sempre que relembro o olhar cinza triste e perdido, mexe comigo. Já para não falar que o seu beijo inesperado, o toque das suas mãos em meu rosto que criou uma sensação estranha e forte, como já não sentia a muito tempo. Uma espécie de um click de que a minha felicidade está mais perto do que imagino.

— O senhor Grey... - mas trava quando as portas atrás de nós abrem, olho por cima do ombro discreta e vejo um homem de terno escuro. - Taylor precisa de alguma coisa?

— Vim só pegar uma pasta para o senhor Grey no escritório! - diz ele andando de expressão fechada pela sala.

Termino a minha refeição de imediato e logo que aquele homem volta atravessando a sala, sai em silêncio parecendo até sério demais e pergunto para Gail se ele é sempre assim ou se é por sentir a presença de estranhos aqui. Ela explica que Taylor é um militar reservado, não é dado a demonstrações.

~*~

Estou tentando ler um livro com o título de "Orgulho e Preconceito" quando chegando as 16:45, as portas do elevador se abrem e de lá saem duas crianças sendo seguidas por Taylor, o homem sem emoção.

Theodore vem carregando a mochila negra do batman nos ombros e me cumprimenta educado, já April larga a mochila da Frozen no meio do chão e corre para mim com os seus olhinhos azuis a brilhar intensamente ao qual abro os meus braços para a receber com todo o carinho.

— Olhem só quem chegou, se não são os meus amores! - Gail aparece na ombreira da porta da cozinha com um pano laranja entre mãos. - Quem quer bolo de chocolate?

April se solta dos meus braços rapidamente para começar a dar pulinhos alegres em cima do sofá. Eu bem tento impedi-la de o fazer, pois sei que é incorrecto, mas a menina continua ainda assim uma verdadeira rebelde em tamanho miniatura. Acho que estou reconhecendo alguém nela agora que a olho com atenção.

— EU! EU! EU! - grita ela parecendo mesmo a delirar.

Mas levo atenção ao pequeno Theodore calado demais ali sentado no degrau da escada e cabeça baixa.

— E você Theodore, não quer uma fatia de bolo? - pergunto na tentativa de receber um pouco da sua atenção.

Ele ergue o olhar cinza para mim e parece que faz um esforço absurdo para não chorar, mas levanta por impulso de onde está, pega a mochila e responde:

— Não tenho fome... - e começa subindo as escadas muito apressado para o andar superior.

Olho para Gail e ela encolhe os ombros não sabendo realmente o que se passa e descendo o olhar a April ela já está ao meu lado puxando pela minha mão.

— Vem... vem... ele não quer... ele é que fica a perder. - diz ela me arrastando para a cozinha.

— Não, não... - travo entre a cozinha e a sala a olhando muito séria, mas na verdade estar com uma vontade louca de rir, porque o seu rostinho toma um ar de medo inocente que cresce uma vontade cá dentro de mim em largar beijinhos em suas bochechas fofas e apertá-las por serem bem mordíveis. - Primeiro é preciso lavar as mãozinhas. - ela faz um beicinho e ergo os olhos a Gail. - Gail não deixa você comer se não as lavar!

April larga a minha mão correndo para as escadas e levo as mãos aos quadris piscando um olho para Gail.

— Não corre assim, você pode cair e se machucar, princesa! - aviso sendo cuidadosa.

Então acabo subindo igualmente as escadas e vou saber como está Theodore, pois o achei demasiado triste e isso me preocupa, porque quero esses dois felizes, por mais que a vida não queira sorrir tanto para eles.

Aproximo da porta do quarto, está fechada. Dou dois toques muito suavemente e ela se abre. Vejo aquele par de olhos cinza e vou entrando. Ele pula para cima da cama e se encolhe lá junto ao travesseiro decorativo do batman. Encosto a porta e vou calmamente para a beira da sua cama, sento e o olho com ternura.

— O que aconteceu, posso ajudá-lo? - questiono não querendo ser invasiva demais, mas no fundo só com a boa intenção de o ajudar.

— Briguei com uma menina no colégio. - responde ele de olhar baixo, mexendo as próprias mãos. - 
Ela falou que não tenho mãe, porque mataram ela e eu respondi que o pai dela a abandonou porque não queria mais saber dela.

A minha expressão muda um pouco, pois percebo que o assunto é delicado e precisa de ser abordado de um modo cuidadoso onde as minhas palavras não possam causar uma ferida aberta.

— Isso não é verdade... O papai do céu é que veio pegá-la mais cedo. - tento explicar de um jeito mais especial. - E você não devia ter falado isso assim para a menina. Pode ter machucado muito ela e quer saber? Eu também já não tenho pai e nem conheci minha mãe e nem por isso deixei de ser uma menina feliz.

— Sério? Eles foram embora com o papai do céu? - assinto que sim com a cabeça, tendo os olhos marejados. - Então eles estão junto com a minha mamãe lá em cima.

— Sim, eles estão... - concordo. - E você deve pedir desculpas a essa menina, viu? Pois por mais que o pai dela a tenha abandonado seja lá pelo motivo que for, você não deve falar isso para ela, porque dói demais. - tento chamá-lo à razão para abordagem de determinados assuntos delicados. - Promete 
que pede desculpa para ela e que fazem as pazes?

Ele assente positivo com a cabeça e gatinha de joelhos em cima da cama para vir me abraçar com ternura ao qual o aperto em meus braços com muito carinho, afagando as minhas mãos sobre as suas costas e cabelos.

— Eu prometo e... - afasta para me olhar direto nos olhos. - E ontem a tia Mia explicou para mim que você não é a minha mamãe, que é só parecida... só que sinto que você é melhor que ela, porque se preocupa comigo, a mamãe apesar de gostar muito dela, nunca passava muito tempo com a gente... - pendo a nuca encarando os seus olhos e embebida passo as mãos sobre os seus cabelos acobreados iguais ao do pai. - é mais amorosa, presente, gosto disso em você. Nunca vai embora, não? - e enterra mais a cabeça no meu peito de forma inesperada que o aperto o protegendo em meus braços.

— Nunca, nunca, nunca... - sussurro com os lábios tocando os cabelos e de olhos fechados.

A porta se abre inesperadamente e um par de olhos azuis e aparece dando as caras. Theodore ergue a cabeça. Ambos ficamos encarando a menina de nariz empinado, mãos no quadril, pé a bater no chão freneticamente como se estivesse tocando um compasso de uma música.

— Vocês não vem comer bolo comigo?

Um biquinho se forma nos lábios delineados de April a deixando ainda mais adorável e mordível. Visto que as suas bochechas começam a ficar coradas e dá uma vontade louca de ir até ela e arrancar muitas gargalhadas sonoras.

— Acho que sua irmã está com ciúme da gente, olhe só como ela nos encara! - segredo para Theodore que me olha cúmplice rindo.

— Estão falando o quê? - questiona passando uma mecha para de trás da orelha tentando escutar melhor.

— Eu disse alguma coisa? - olho para Theodore que nega com a cabeça. - Nada, vê? - mostro um olhar inocente para April que se dá por convencida. - Hum... vem cá pequena! - a chamo e ela corre para a cama ao qual pula se juntando a nós dois e nos abraça apertado. - Oh princesa que gostoso esse abraçinho.

~*~

— Papai! - April desvia caminho largando a minha mão assim que as portas do elevador se abrem e revelam Christian entrando. Ele Agacha para receber a filha em seus braços. - A Gail fez bolo de chocolate, o senhor come com a gente? Diga que sim, por favor? - pede ela e olho para Theodore sorrindo.

Christian me ergue o olhar que acabo retribuindo de mãos pousadas sobre os ombros de Theodore.

— Está bom, o papai come, mas primeiro tem que tomar um banho! - ela começa dando pulos alegres e deixa um beijo estalado na bochecha dele vindo a correndo de volta para mim. - April o que falei sobre correr no apartamento? - ele bem tenta repreendê-la, mas a garotinha decide se esconder nas minhas pernas como se eu fosse o seu anjo da guarda.

— Vamos para a cozinha, então! - incito dando umas palmadinhas leves nas costas dos pequenos.


Gostaram?
O que tem a dizer desse primeiro dia de Anastacia na casa dos Grey?
Dessa comunicação com os mais pequenos?
COMENTEM ♥
Até ao próximo capítulo, Lucy. 

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