Herança do Amor - Capítulo 11

Pov. Christian Grey

Ela mal chegou e já conquistou assim a confiança dos meus filhos? Devo ficar preocupado em correr o risco de ser trocado? Ou devo ficar tranquilo, porque eles ficaram em boas mãos? É talvez, e não entendo porque sinto esse mínimo ciúme, devia estar feliz em vê-los felizes.

Começo a coçar a nuca indo para o meu quarto enquanto eles vão para a cozinha e olho por cima do ombro. Anastacia está de costas os encaminhando com tapinhas amorosos no ombro. Suspiro baixo e desvio o olhar.

Ao entrar no quarto fecho a porta com o pé e afrouxo totalmente a gravata da volta do pescoço com uma puxada apenas. Aos poucos vou libertando das roupas e tento relaxar esse corpo tenso de um de uma jornada de trabalho. A minha cabeça está a mil não parando nem um segundo que seja de pensar. Sigo para o banheiro e ligando o chuveiro fico a observar as águas correrem furiosas como uma cachoeira. Entro relaxando e fecho os olhos enquanto as águas correm lado a lado ao meu corpo aquietando a ansiedade vibrante que sinto.

Enquanto me vejo sendo invadido por uma queda de água os meus pensamentos voltam atenção a Anastacia, ao seu carinho com os meus filhos, ao modo de como tão inicial a sua presença já está causando tão bom estar neles. April nem parece que perdeu a mãe, Theodore parece mais confiante e outra coisa, não sinto tanto receio em encarar os meus filhos como antes. É como se ela já estivesse fazendo um milagre em nossas vidas em tão pouco tempo.
Terminado o banho puxo a toalha branca e a enrolo na volta do tronco. Vou caminhando com o corpo escorrendo água até ao closet. Escolho uma roupa informal, algo como um pólo cinza e umas calças de moletom pretas. Calço um ténis Lacoste brancos e sacudindo os cabelos na frente do espelho os deixo todos rebeldes e desleixados.

Saio na direcção da cozinha e vejo meus filhos comendo com gosto o bolo de Gail. Anastacia desinibida servindo o chocolate quente para eles e com um chá na sua frente cheirando muito bem por sinal. Quando os olhos de April encontram os meus quase que rio, pois sua boca está tão suja de calda de chocolate que é memorável vê-la se alimentar tão bem. Apesar de doces não alimentarem, mas já é um começo para quem brincava com a comida deixando totalmente intacta no prato sem comer.

— Filha limpa isso... - indico com o dedo indicador e ela mostra os dentinhos de leite para mim sorrindo para mim.

— Senhor Grey deseja café? - pergunta Anastacia prestável quase que fazendo o trabalho de Gail que cuida de uma sopa cheirosa atrás do balcão distraída.

— Pode tratar por Christian, Anastacia! - peço gentilmente ao me servir de uma fatia de bolo. Ela cora um pouco, parece que fica sem jeito. - E sim, aceito.

Anastacia pega o bule de café e o serve em minha xícara. Fico a observá-la no modo delicado de como ela faz as suas tarefas simples e quando os meus olhos encontram os seus olhos, ela se descuida derramando café e levanto por impulso por estar quente demais.

— Oh meu Deus, desculpe senhor Grey! - ela pousa o bule alarmada e com os olhos bem arregalados em pânico de quem havia cometido o maior acidente da sua vida. - Vou pegar um pano!

Apressa ela toda cuidadosa ao se virar para o lado e pegar um pano para secar o meu pólo.

— Não está tudo bem, não se preocupe... - toco em sua mão e de novo sinto aquela uma ligação ao ter suas safiras azuis me encarando oscilantes.
April e Theodore terminam de comer e levantam num pulo. Fico só eu e Anastacia, pois Gail por algum motivo de força maior saiu sem que desse conta.

— Sou uma desastrada, peço desculpas senhor! - ela afasta a mão de mim.
Começa a fugir com o bule até ao balcão junto do fogão e o pousa ali. A sigo com o olhar sempre de perto e apesar do incidente embaraçoso, gostei da sua proximidade, de poder tocar a sua mão, é tão delicada e macia quanto imaginei. Contudo, fico triste é por vê-la fugir de mim, então levanto e vou até onde ela está.

Anastacia se mantém ocupada arrumando umas pegas do forno em uma gaveta e pouso a mão sobre o seu ombro. Ela vira lentamente os seus olhos azuis para mim e prende a respiração.

Será que a intimido tanto assim?

— Anastacia eu quero pedir desculpas. Não interprete mal as minha acções, está longe de mim querer magoá-la... - mas ela interrompe desafiadora.

— Não o senhor tem que perceber uma coisa, primeiro. - a olho concentrado. Só que ela volta desviando o seu olhar de mim fugindo de novo. - Eu não sou a mulher que perdeu você perdeu, por favor! Coloque isso na sua cabeça. - assinto dando um passo atrás e elevo as mãos em rendição, pois pressioná-la é algo que está fora dos meus planos. - Sou só alguém que foi contratada para cuidar dos seus filhos, então agradeço que me trate como uma profissional e não confunda as coisas, porque não quero que o senhor olhe para mim e me iluda, entende? - e começa a virar as costas para mim.

— Espere... - uso o tom imperativo e ela olha por cima do ombro. Os seus olhos mergulham nos meus, eles estão oscilando em cima de mim. - Está no seu direito querer me manter longe. Vou prová-lo de que não estou confundindo coisa alguma. - ela engole em seco ainda me encarando. Os seus olhos estão tão nervosos olhando os meus que diria que logo estará chorando na minha frente. - Que quando olho para si vejo uma mulher diferente, apesar das muitas semelhanças a Olivia, embora possa não acreditar na minha palavra o que compreendo e mal me conhece, mas estou disposto a conhecê-la se me permitir, até porque adoraria ter uma boa relação com a babá dos meus filhos, sabe? Acho que iria tornar tudo bem mais simples por aqui.

— Sim, podemos mas com calma por favor!

— Claro que sim... - sorrio lascivo e viro as costas a deixando ocupada com as suas tarefas.

Os meus filhos nem parecem dar conta ao modo relâmpago de como passo por eles ali tão brincalhões de frente ao LCD discutindo quem fica com o comando para mudar de canal. Entro no escritório batendo a porta nas minhas costas. Não entendo porque fico tão perturbado por sentir que ela foge de mim, do fato de ter escutado aquelas suas palavras da sua boca.

"Sou só alguém que foi contratada para cuidar dos seus filhos, então agradeço que me trate como uma profissional e não confunda as coisas, porque não quero que o senhor olhe para mim e me iluda, entende?"

Sento na frente da secretária, pouso os cotovelos ali me servindo de base e enterro as mãos nas têmporas, as esfregando em círculos por uns momentos até o meu iPhone vibrar com novo e-mail e rapidamente lanço os meus olhos curiosos e o abro, pois é e-mail de Welch.

Dossier Anastacia Steele
Nome: Anastacia Rose Steele
Nascimento: 10 de Setembro 1989, New York - EUA
Estado Civil: Solteira
⦁ Relações: José Rodriguez, noivo no período de 30-09-2007 a 07-02-2016;
Emprego: Babyssiter

Formação Académica:
⦁ NYU Universidade de New York, formada em administração de empresas;
⦁ média final é de 18 valores;
Pai : Raymond Steele [adotivo]
⦁ Estado Cívil: Viúvo
⦁ Emprego: Policial
⦁ Nascimento: 19 de Novembro 1968
⦁ Falecimento: 1 de Janeiro de 2010

Informação adicional:
⦁ Nasceu num hospital uma localidade próxima de New York;
⦁ A mãe biológica morre no parto por sequência de complicações graves;
⦁ Aos 5 anos de idade adotada por Raymond Steele, recém viúvo de Carla Steele vitima de cancer de cerebral em estágio terminal;
⦁ Perde o pai adotivo aos 23 anos de idade;
⦁ Há cerca de 3 meses o noivo morre em acidente fatal a duas semanas do casamento;

Assim que termino de ler as informações que ainda assim muito incompletas, mas com detalhes curiosos estreito mais o olhar na data de nascimento de Anastacia e percebo o quanto coincide com a de Olivia. Não Grey não tem como elas serem irmãs, Olivia não tinha irmãos. Além que se fossem, você saberia a minha voz interior tenta me alucinar um pouco.

De fato tinha um dossier de Olivia que pedi na altura em que ainda era moleque para um amigo meu mais velho e apesar de estranho alguns detalhes coincidem agora que recordo, mas muito poucos.
Olho para a porta e a abro observando a sala, Anastacia está encaminhando os meus filhos para o andar superior e suspiro voltando a fechar a mesma. Encosto as costas na porta e olho para a tela do celular ainda com o e-mail aberto.

"Há cerca de 3 meses o noivo morre em acidente fatal a duas semanas do casamento"

Agora é esse último item não me sai da cabeça e toda a vez que lembro de olhá-la no fundo dos seus 
olhos só consigo lembrar do quanto ela é frágil e do quanto quero protegê-la, abraçá-la contra mim, dar todo o meu consolo. Agora sei que tudo não passa de carência, ou fantasia da minha cabeça, é verdade que a ligação que sinto por ela, é forte e tem um motivo grande. Ambos estamos sofrendo pela mesma coisa, a perda de um grande amor. E talvez essa seja a razão de me afastar constantemente, não apenas por Olivia, mas por José também.

— Preciso de saber mais sobre ela... - baixo ao afastar da porta e dirigir para secretária sentando na frente do macbook. Abro a tampa e começo a ocupar a minha cabeça.

~*~

Ao cair da noite paro de trabalhar e levanto espreguiçando um pouco. O meu corpo todo dói de ter passado essas últimas 3 horas a trabalhar sem fazer uma pausa. Saio para a sala e encontro Gail levantando os pratos do jantar, mas o meu continua intacto na mesa me esperando.

— Quer que aqueça o jantar? - ela pergunta ao me ver aparecendo na sala.

— Pode ser, sim... - aceito ao sentar na mesa e servir a minha taça com vinho. - Gail? - ela trava junto à porta com a pilha de pratos e me olha por cima do ombro. - A Anastacia já saiu?

Ela suspira baixo rodando um pouco mais nos próprios calcanhares.

— Ela está lá em cima ainda, creio que lendo uma história para a menina! - fala orgulhosa e finalmente me deixa sozinho.

Sorrio de canto pegando a taça de vinho e a levo aos lábios tomando um gole breve, mas saboroso.
20 minutos depois de degustar da sopa deliciosa de Gail, levanto limpando os lábios com o guardanapo e vou até às escadas pronto a ir deixar um beijo de boa noite em meus filhos, só para quebrar a rotina que à meses não contemplo. Não sei se é por uma questão de rotina que o faço, mas só sei que uma força de dimensões maiores me puxa para lá.

No topo das escadas começo a trilhar pelo corredor e cruzo com Anastacia que sai sorrateira do quarto da minha filha e com o dedo indicador sobre os lábios ela me pede silêncio e sorrio parando próximo dela, sempre com uma distância considerável, mas ainda assim a encarar os pormenores do seu rosto com outra atenção.

— Está tudo bem, senhor Grey? - questiona ela erguendo a sobrancelha intrigada e começo logo a coçar a nuca disfarçando com um pigarro ligeiro.

— Sim, só vinha deixar um beijo de boa noite nos meus filhos... mas tudo bem, já estão dormindo, amanhã... - e começo a virar as costas.

— Espere... - mas a sua voz me faz quebrar o passo e viro lentamente encontrando as suas safiras brilhantes. - Ninguém disse que não pode deixar um beijo de boa noite neles! - sorrio torto com as suas doces palavras. - Vá até ela, tenho a certeza que a sua filha vai gostar. - ela incita abrindo a porta com meia claridade no interior.

Confesso que acabo entrando e acho a minha April agarradinha ao seu urso de pelúcia. Aproximo dela muito lentamente e sem grandes balanços debruço deixando um beijo casto nos seus cabelos. Recuperando a postura encontro os olhos de Anastacia me encarando e parece com orgulho, estarei eu me mostrando uma pessoa diferente do que ela imaginou? Será isso bom?

~*~

— Theodore estava tão lindo dormindo... - comenta ela ao me acompanhar nas escadas as descendo. - Ele sempre adormece com um livro no colo?

— Sinceramente não faço a menor ideia, sabe? - e travo para a encarar melhor. - Vou lhe confessar uma coisa, nunca fui um pai perfeito... - ela me olha concentrado. - Mas acredito que você me possa ajudar a ser uma pessoa melhor, posso confiar essa tarefa? - ela sorri voltando a descer mais uns degraus.

— Claro que sim, senhor Grey! - confirma com um sorriso casto. - O meu trabalho aqui não é apenas para garantir a segurança emocional deles, é também para garantir a união com o pai... se me permite, o senhor devia ser mais presente na vida deles. Eu sei que não é simples, mas toda a gente tem direito a uma segunda chance.

As suas palavras me fazem pensar um pouco de mãos sobreposta na barba rala ao chegar no andar inferior. Anastacia a uns passos na frente vestindo a sua gabardina azul e se vira para mim me tirando desse transe.

— Bom vou ter que ir indo... - diz ela pegando a bolsa e alçá-la pelo ombro. - Tenha uma boa noite, senhor Grey!

Anastacia começa a andar na direcção das portas que se abrem uns segundos depois de tocar no botão do elevador e fico no mesmo lugar a observando ir como no dia anterior e sorrio acenando um breve adeus. Quando estas fecham, fecho os olhos e levo as mãos à cabeça caminhando para o quarto.


Gostaram? 
O que acharam dessas informações do Dossier? Eu sei que não é muito detalhado, mas a vida de Anastacia terá sempre uns mistérios que não serão revelados de caras, terão seu período para aparecer no desenrolar da história.
Será que Christian com essas informações vai olhar para Anastacia com outros olhos? Afinal ele agora já sabe que ela perdeu alguém. Já sabe porque em certa parte o afasta, não?
COMENTEM ♥
Até ao próximo capítulo, Lucy.  

Comentários