Herança do Amor - Capítulo 12

Pov. Anastacia Steele

Um mês depois...

São 10:00 da manhã, o sol está forte lá fora e dá impressão que é mais um dia de calor cobrindo Seattle. Hoje decidi que apenas ia entrar no trabalho somente de tarde, já que Gail falou que é desnecessário estar lá todos os dias bem cedo, quando o apartamento se encontra vazio, já para não falar que são mais as vezes que durmo lá, do que em casa. E a bem ver meio que me deu um belo jeito, pois assim podia passar um tempo comigo mesma arrumando algumas coisas que mal tivera tempo de fazer nos últimos tempos. A minha vida parece que mudou tanto em um mês, que creio que nem dei pelo tempo voar.

Eu sei que a minha vida está começando a ganhar pernas para endireitar, que este emprego me vai dar alguma estabilidade financeira e finalmente vou poder pagar a Kate por tudo o que gastou comigo. Apesar dela vir continuamente para cima de mim com a negação de aceitar qualquer centavo do meu dinheiro. Mas sou teimosa e não vou dar por vencida, ou não me chamo Anastacia Rose Steele.

Pego a última caixa do closet e ao pousá-la sobre a cama, abro e encontro umas coisas que guardei, uma espécie de lembranças de New York. No interior tem um álbum de recortes e o retiro para fora. Passo a ponta dos dedos suavemente sobre a capa e sorrio breve, pois havia comprado ele com José no nosso primeiro ano de namoro. Ao revirar as páginas vejo as fotografia datadas com as datas especiais da nossa relação. Lágrimas começam a preencher os meus olhos e é quase inevitável não sentir a falta dele. Só que quando fecho os olhos a minha memória me trai e leva para um outro lugar não tão distante, mas na verdade mais próximo do que imagino. A residência dos Grey.

Ai aquele par de olhos cinza entra em minha mente dominando totalmente e de novo todas as sensações que sinto próxima daquele homem voltam com força causando um impacto profundo em mim, sensações estranhas e ao mesmo tempo tão vibrantes que me fazem sentir viva. Pois sempre que lembro do embaraço que fico em que cruzo os meus olhos nos seus, ou do modo de como prendo a respiração quando sinto que está próximo demais de mim, do toque delicado da sua mão que faz ter a impressão de que o chão abaixo dos meus pés está prestes a ceder.

Eu não sei se é correto sentir isto e em certa parte, eu não posso. Aliás, nem devo por várias razões. E depois tenho medo de me deixar levar longe demais pelas emoções e me machucar de novo e não sei se terei forças suficientes para levantar de uma nova superação, quando a velha mal está curada. Ambos estamos de luto, um luto profundo ainda muito presente em nossas vidas que pode causar ilusões que não serão boas para nós. E neste momento tenho uma missão, é nela que tenho continuar focada.

— Anastacia? - uma voz chama por mim e desperto fechando o álbum repentinamente e ergo o olhar à porta. - O que você faz com isso? - Kate pergunta entrando no quarto de pijama e cabelo desgrenhado que acabou de acordar.

— Só arrumando algumas coisas, sabe que andei meio preguiçosa... - levanto com a caixa na mão e a levo de volta para o closet.

— Não precisa ficar tão preocupada com isso, são apenas detalhes, Steele!
 
Volto para o quarto e de mãos sobre o quadril fico encarando o espaço e para a minha amiga que olha em volta tentando procurar saber o que estou imaginando.

— Você ainda não sabe se está pronta para uma mudança, não é?
Kate tira as palavras da minha boca. Será que tenho uma amiga telepata agora?

— hum? O quê? - faço o número da descompreendida.

A minha amiga pende a nuca para o lado e franze o olhos me encarando séria como se eu fosse temer a sua crueldade. Sento no chão à sua frente de pernas cruzadas. Circundo as minhas pernas com os meus finos braços a encarando com um sorriso bambaleante sobre os lábios.

— Não vem com essa cara, não! Eu sei que você percebeu muito bem a pergunta e se vai ficar ai com aquela conversa, ai eu não quero deixar minha amiga sozinha vivendo no apartamento tendo aquela despesa toda... - rio com o modo de como Kate se sai bem imitando a minha voz, apesar de estar estética demais e não sou bem assim. - Sério Anastacia se tiver que continuar passando umas noites fora, não terá problema nenhum e quando for de vez, lembre que vou continuar amar a minha melhor amiga e desejar que me venha visitar um milhão de vezes... há e que traga um gatinho para mim...

— Kavanagh você não existe, não é? - pergunto levantando do chão para abraçá-la com força.
Só que ela me puxar para uma guerra de travesseiros igual na nossa infância e que sempre perdia, pois ela me mata de rir com isso e depois fico sem acção. E uma mulher sem acção é uma mulher morta.

~*~

Kate prometeu que iria no shopping e até agora não larga do celular naquele banheiro e daqui a pouco preciso almoçar e ir embora, pois as crianças chegam por volta das 16:30 e não quero chegar atrasada. Okay, talvez esteja demasiado controlada no tempo e até tenho imenso de sobra, mas que mal tem eu querer regular tudo com horários?

Respiro fundo uma vez mais e vou no banheiro batendo na porta pela milésima vez.

— Se não abrir a porta assim que contar até 10, eu juro que chamo o bombeiro do andar de cima para arrombar! - ameaço tentando soar credível. - 1... 2... 3... - começo a contar lentamente... - 4... 5... 6... - mas a porta se abre e o sorriso amarelo da minha amiga se revela.

— Não precisa chamar ninguém, não! - responde ela dando pulinhos de calcinha na minha frente para o quarto. - Ainda por cima o cara é gordo e feio! - reclama.

Vou atrás dela e encosto na ombreira da porta a encarando de braços cruzados. Kate começa se trocando com roupas de treino, pois ela sempre vai na academia nas suas folgas para sarar o corpo.

— Você prometeu ir no shopping pegar a nossa pizza congelada para o almoço, lembra?

Debruçada sobre o próprio corpo ao se calçar, Kate me ergo o olhar pidona e percebo logo que ela iria me pedir esse favor, porque aposto que ela já estava com outros planos.

— Pois eu sei... - aperta os cordões do ténis air max da Nike rosa. - Eu já não vou malhar tem duas semanas, porque Jack andou necessitando de mim e você sabe que só folguei domingo passado e no anterior... conclusão esses mês não tive tempo para nada.

— É só mesmo isso ou você tem uma cara que queira encontrar, hein? - pergunto passando a língua matreira sobre os lábios.

Num pulo a minha amiga se levanta e pega o seu saco de treino passando por mim. Deixa um tapa na minha bunda ao qual xingo baixo indo atrás dela para a cozinha. Kate puxa pela garrafa de água a enchendo na torneira e a olho sempre captando algum tipo de embaraço que a denuncie, mas ela é ótima a disfarçar emoções. Diferente de mim que sou uma papa micos, porque tenho umas bochechas que estão sempre carregando no vermelho avisando quando alguém está me deixando tímida.

— E se tiver um gatinho por lá? - ela começa falando finalmente ficando de frente para mim sorrindo igual uma adolescente. - Não falando que vou encontrar com alguém, mas pessoas gostosas podem surguir e tirar uma lasquinha não mata ninguém.

Abro a boca a querendo tapear, porque essa minha amiga é safada que até dói e não muda, passem os anos que passarem.

— Quero ver quando o cara certo aparecer na sua vida de que jeito você vai reagir. - afirmo e ela fica pensativa. - Aposto que vai suspirar tanto e desejar ser a garota mais fiel desse mundo.

— É, creio que sim... - concorda rindo baixo e sai na direcção da porta me deixando sozinha com o silêncio.

~*~

Ocorreu uma mudança de planos no meu almoço e acabei comendo um ovo mexido ao invés de pizza. E agora me vejo no quarto procurando uma roupa para vestir, porque sujei ao cozinhar com óleo. Odeio na verdade quando isso acontece e dou um suspiro pesado achando um macacão de ganga. O visto na frente do pequeno espelho do closet apanhando o cabelo num rabo de cavalo alto, dou um beijo no ombro saindo do quarto na direcção da sala para pegar o celular da carga que já ia esquecendo de tirar ou a minha bateria vai viciar e ai bye bye celular velho. Okay, eu sei que estou necessitando de um celular novo e que esse já passou de moda tem muito tempo, mas uma coisa de cada vez. Prioridades primeiro e depois o resto.

Alço a bolsa no ombro e pego a chaves da porta saindo do apartamento. Ignoro o elevador chamativo e uso as escadas as pulando alegremente. Na entrada cruzo com uma senhora que chega com o cachorrinho e sorrio amável, pois o bichinho começa pulando para as minhas pernas desejando colinho.

— Joshua deixe a menina! - ordena a senhora para o seu animal que parece obediente ao agachar as patinhas.

— Tenha um bom dia senhora Flowers! - cumprimento educada.

— Você também linda Anastacia! - ela diz o meu nome e travo com a porta de vidro na mão virando lentamente para encará-la e fico surpresa.

— Como a senhora sabe meu nome? - pergunto de olhos estreitos na figura inocente da idosa de cabelo grisalho.

— Nesse condomínio toda gente sabe quem são as meninas do 4 andar! - esclarece. - E eu fiquei sabendo que perdeu seu noivo... - quando ela toca nesse ponto fraco o meu sorriso some por segundos.

— Até logo... - afasto deixando a porta bater nas costas.

Corro para o Alfa parado numa sombra causada pelo abeto e fazendo um biquinho respiro fundo e penso "não posso me deixar afectar tanto". Saio da vaga manobrando com cuidado e me faço à estrada cantando ao som de Ed Sheeran a música photograph.

~*~

Chegando no escala pego o elevador com gente e asseguro uma viagem tranquila até à cobertura. Os meus pensamentos sempre ocupados com o som da música que vim escutando o caminho todo. Assim que a claridade entra pelo meus olhos saio rompendo desse transe andando para o hall e dispo o casaco de ganga o deixando num cantinho apropriado, bem como a bolsa.

Cumprimento Gail que me sorri de canto e passo logo a dar uma mãozinha com algumas tarefas, já que ela me parece atrapalhada ao pegar no cesto da roupa que mais parece uma montanha russa.

— Estava mesmo precisando de um apoio... - informa ela sorrindo.

Subo atrás dela até ao primeiro andar e levo as roupas para o quarto de cada um dos pequenos e fico estarrecida ao ver que o quarto de April está ainda pior que no dia anterior e com uma olhada no relógio trato de fazer um verdadeiro milagre acontecer.

Tendo as tarefas concluidas, desço as escadas na confiança de que teria uns minutos para sentar e relaxar, mas meu espanto é que ao aproximar do último degrau vejo April e Theodore todos esponjados e arregalo os olhos nem tendo dado por essa chegada. Respirando fundo e percebendo que o meu dever tem que ser cumprido aproximo deles de mãos sobre os quadris.

— Vamos cuidar dos deveres de casa, sim? - falo para eles que estão esponjados na frente do LCD da sala não dando a mínima para mim. Até parece que perdi o encanto de um dia para o outro. - Theodore tem dever de casa? Quer ajuda? E você minha menina o que é aquilo ali no chão?

April rebola em cima do sofá e lança o travesseiro para mim achando isso muita graça e sorte é que sou boa em pensar rápido que o pego de imediato. Ela está toda com um olhar matreiro de quem quer entrar numa guerra de travesseiros comigo.

— Não, primeiro os deveres, depois as brincadeiras! Vocês já lancharam? - seguro o travesseiro entre as mãos e tento bancar a única responsável.

— Já comi um bolinho de arroz no colégio! - responde Theodore brincando com o comando. Olho para a pequena que continua mostrando a língua para mim muito divertida.

— E eu comi uns biscoitos que o Taylor tinha no carro, mas não fala para ele que fui eu, se não o papai depois briga comigo. - confessa ela e rio da sua safadeza gulosa.

— Vá meninos, sem preguiça! Toca a subir, então! - ordeno tentando parecer séria, mas é complicado.

Theodore levanta caminhando exasperado pela sala e April faz o contrário se deixando ficar lorde no sofá para ser do contra.

Há, mas essa menina é esperta demais.

Gargalhadas saiem desinibidas da sua pequena boca e afim de alguma resistência acaba vencida por minha persistência. Subo as escadas com a mochila de April na mão, porque ela, soube bem se esquivar correndo na frente muito sapeca, só querendo brincadeira e vou direto para o seu quarto. Ela 
me mostra os seus cadernos da escola, incluindo o último desenho.

— É para você! - diz ela o estendendo na minha direcção e as minhas lágrimas chegam nos olhos. - Aqui é o papai, o Teddy, eu e você. - sorrio para ela quando me ergue os olhinhos amorosos e deixo um beijo nos seus cabelos.

— É muito lindo, princesa! Obrigado.

Quando termino, passo na biblioteca para ver como Theodore está se saindo e o encontro concentrado a resolver o dever de matemática. Aproximo em silêncio da mesa de estudo e observo impressionada com o modo de como ele consegue resolver tudo sem pedir ajuda. Logo que termina me ergue o olhar cinza.

— Se quiser pode conferir... - avisa ele me passando o caderno para as mãos.

— Com certeza. - pego o seu lápis e começo eu mesma tentando conferir tudo mentalmente. Afinal eu amo números desde que lembro ser gente. - Muito bem... - elogio. - Você é bem inteligente, Teddy! - devolvo o caderno e sorrio beijando os seus cabelos
 



Gostaram?
O que tem a dizer essa Anastacia? Acham que está superando cada vez mais a falta de José?
E essa Kate maluca?
O que acharam desses pequenos sapecas? Dessa April cheia de traquinice? O presente que ela deu para Anastacia? ♥
Até ao próximo capítulo, Lucy.

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