Herança do Amor - Capítulo 8

Pov. Anastacia Steele

Eu não sei o que pensar ou sequer o que falar. Só sei que fui apanhada de surpresa por esse homem de olhar perdido ao tomar meus lábios num beijo cheio de saudade e apesar de o ter afastado de imediato senti algo muito forte ali. Talvez seja a minha carência falando mais alto. Tem meses que estou sem ninguém na minha vida, que não beijo um homem.

Na verdade nunca beijei ninguém depois de José, pois fiz uma jura a mim mesma no dia da sua morte que jamais me entregaria ao amor novamente por medo de voltar a sofrer de novo. Ele foi muito importante na minha vida. E ainda está complicado superar a sua falta para conseguir seguir em frente numa boa superação.

Sentada nesse sofá abaixo a cabeça e deixo as lágrimas rolarem pela minha face. Escuto as vozes vindas das escadas, mas decido ignorar. E não por muito tempo, pois logo a pequena April vem para junto de mim, me abraçando com ternura e uns passos logo atrás dela se fazem aproximar de onde estou, criando uma pequena sombra no chão.
Fico apreensiva e e levanto por impulso afastando dele, pois não quero sequer que ele volte a me tocar. Sendo que não suporto bem o toque de um homem que não seja aquele que eu amei, não que tenha repulsa ativa do seu, pois me parece ser um homem que respeita a feminilidade de uma mulher. Diferente de um mau carácter como o do monstro que abusou de mim quando tinha somente 10 anos.

— Mamãe não gosta mais do papai? - April pergunta de braços cruzados em cima do sofá. A sua expressão é zangada aos nos encarar aos dois.

— Filha acabei de falar que essa mulher não é a sua mamãe! - ele explica não tirando os olhos intimidadores de mim. - Ela é muito parecida com ela, lembra? - começa andar mais uns passos na minha direcção, mas logo cessa ficando a uma distância considerável. - Olhe eu não quero assustá-la, por favor não tenha medo de mim... - ele ergue as mãos ao se desculpar, o seu olhar muda.

Vejo sinceridade nos seus olhos profundos e tristes. Tento baixar um pouco a guarda e dou um passo na sua direcção mostrando confiante e sem medo da sua postura diante os meus olhos que não desvio dos seus por um segundo que seja.

— Tudo bem... - digo num fio ao desviar o olhar para April que está esperançosa nos encarando e acaricio o seu rosto com a ponta dos dedos muito suavemente. - E princesa eu não posso dizer se gostou ou não do seu pai, porque eu não o conheço... - falo para ela que pende a nuca fazendo um bico infantil.

— Ela gostou de você! - ele atreve a falar e desvio os olhos para ele de novo. - Aceita cuidar deles? - a sua voz sai esperançosa. - fico meio pensativa sobre isso, mas ele continua. - Anastacia, certo? - assinto que sim com a cabeça. - Então, eles perderam a mãe a relativamente pouco tempo... como deve calcular é muita coincidência ela se parecer tanto consigo e... - mas April interrompe.

— Perdemos não, o papai do céu veio pegar falou a vovó Grace!

Sorrio fraco para a menina, tão novinha e tão espertinha. Ela realmente deve ter sofrido tanto ao perder a mãe tão cedo. Bom já eu nem a minha conheci e nem faço a menor ideia de como ela era.

— Isso filha... - concorda ele. - Eu sei que Olivia não tinha irmãos, mas é estranho e... - o interrompo.

— Eu também não.

— Bom idem, isso só para falar que eles precisam de uma presença feminina dentro de casa, apesar de ter Gail a minha governanta... mas ela está cheia de trabalho e não consegue cuidar de tudo sozinha.

— Compreendo! - afirmo juntando ambas as mãos no centro do quadril. - E como seria o horário?

— Bom, a ideia é que a babá dos meus filhos viva aqui com a gente. - estreito o olhar.

Viver aqui nesse apartamento de luxo? 24 horas por dia a conviver com esse homem que me beijou? Ter o risco de continuar a ser alvo de confusão por outras pessoas sempre que entrarem por ele elevador e me chamarem de Olivia continuamente?

— Pois... não estava a contar com essa mudança, é que me mudei recentemente para Seattle e vivendo com uma amiga. - mordo o lábio inferior involuntariamente e ele se move ligeiramente.

— Não tem problema Anastacia, podemos ajustar os horários ao que melhor for para você e que beneficie os meus filhos, é claro. - concordo com um aceno breve de cabeça. - E ai talvez depois se mudar lentamente para cá. O que me diz?

Ele me olha com certa esperança e respiro fundo pensando que se tomar esta decisão que somente o farei a pensar nessas duas crianças que realmente precisam de amor e carinho. Eu sinto que tenho que fazê-lo, nem que seja para me superar a mim mesma.

— Posso pensar um pouco e lhe dar uma resposta mais tarde? - pergunto meio vacilante.

Os olhos dele não saem de cima de mim oscilantes.

— Claro que sim! - ele abre a aba do seu paletó tirando algo. - Tem aqui o meu cartão, se quiser ligue para responder sim ou não. Caso aceite, gostaria que começasse já amanhã se não houver incomodo algum para você.

Pego o cartão da sua mão e assinto com um sorriso breve. Agacho para dar um beijo de despedida em April que me aperta em seus braços amorosa.

— Tenha uma boa tarde, senhor Grey! - despeço com uma educação sublime ao passar por ele para ir para o elevador.

Carrego no botão e olho por cima do ombro discretamente, ele me olha e desvio logo os olhos. As portas abrem e entro dentro.

— Anastacia! - ele se despede e as portas fecham.

~*~

Assim que abandono o Escala pego o meu carro e dirijo para a lanchonete onde Kate trabalha. Queria conversar com a minha amiga e lhe contar o que aconteceu comigo. Pois me sinto estranha e confusa com esse acontecimento bizarro.

Uns momentos depois de pegar um trânsito infernal de um final de tarde em Seattle, acabo encontrando uma vaga para estacionar o meu Alfa. Antes de sair respiro fundo e murmuro algo baixo e só então munida de coragem é que abro a porta do carro saindo. Passo por umas pessoas que tomam sorvete na esplanada e entro chocando de frente com Arizona que sorri para mim apontando o balcão.
Kate estava ali limpando a superfície de alumínio. Aproximo dela pousando a bolsa em cima do mesmo. Ela ergue o olhar surpreso a mim e logo larga o pano amarelo no lado e leva as mãos ao quadril as secando ali.

— Então Steele conseguiu arrumar emprego? - os seus olhos oscilam curiosos em mim.

— Você não vai acreditar no que aconteceu comigo! - falo balançando a cabeça ligeiramente e pouso os cotovelos na base me apoiando.

— Conta, vai! - pede ela bem ansiosa.

— Lembra que eu te disse no almoço que tinham chamado para entrevista? - ela assente com a cabeça recordando. - Então eu fui lá e descobri que ao invés de ser para trabalhar na empresa, era para ser babá de duas crianças.

A expressão ansiosa da minha amiga logo se transforma em um ar incrédulo e espanto fulminante. Diria que Kate está tendo um ataque cardíaco ou algo do género.

— Está falando sério? - reviro os olhos.

— Não brincando, Kavanagh! - bufo para o momento lerdo da minha melhor amiga. - Você me acha com cara de quem está pregando partida? - ela nega. - Então estou falando super sério e pior nem é isso...

— Não?

— Não! - confirmo. - Eu depois fui no tal apartamento para conhecer as crianças, eles me confundiram com a mãe... melhor todo o mundo me chamou de Olivia... enfim, e ainda ganhei um beijo na boca de um homem todo sexy. - ela arregala os olhos surpresa.

— Brinca?! Isso é mesmo verdade? E você? Retribuiu, não?
Kate às vezes perde a noção das coisas. Claro que jamais iria retribuir um beijo de alguém que somente me confundiu com outra pessoa, só porque ambas temos traços semelhantes. Eu não sou mulher sair por ai desdestruindo beijos ou corações ao primeiro homem que me aparece, mais ainda carente.
— Eu confesso que quase cedi, mas o afastei e fugi dele. - humedeço os lábios e balanço os pés ao abaixar a cabeça.

— É por causa do José, não é? Eu entendo muito bem isso amiga. - ela puxa a minha mão e a segura com ternura acariciando o dorso dela com carinho. - Você ainda não o esqueceu.
Suspiro pesado e fechando os olhos por escassos segundos tudo o que lembro é de José e dos nossos momentos felizes. Mas ele morreu e eu tenho que seguir em frente. Ele iria querer me ver sorrindo, feliz de novo e apaixonada.

— Ele ainda está muito presente na minha vida e depois esse homem me confundiu com a falecida esposa. Coisa mais tensa... - fecho os olhos enterrando as mãos na cabeça.

— Hey... - ela afaga as suas mãos nos meus braços. - Você tem que superar isso, você é forte, lembra? E quem sabe não lhe faça bem mudar de vida, hein? - ergo o olhar aos olhos esmeralda oscilantes. - Talvez seja o destino a dizer que você deve seguir esse caminho. Já imaginou que José pode estar lá em cima a guiá-la para a felicidade de novo? Talvez a sua missão seja ajudar essa família. Amiga se fosse você aceitava esse emprego e dava uma chance a si mesma de ser feliz.

As palavras de Kate ficam ecoando na minha cabeça umas tantas vezes e de novo os olhos daqueles pequenos se destacam na minha memória. O olhar perdido daquele homem que apesar de jovem parece que sofreu a vida inteira.

— Eu preciso de dinheiro, preciso de trabalho.... - suspiro. - Preciso de pensar, não posso agir por impulso.

— Você está certa! Aliás que horas são mesmo? - ela pergunta olhando comigo o relógio de parede e começa tirando o avental de serviço. - Está na minha hora! - diz ela feliz. - Vamos embora!

~*~

Logo depois que chegamos no apartamento e Kate correu para o banho, fiquei sozinha nessa sala encarando o cartão na minha mão. Eu estava indecisa em aceitar ligando de imediato para ele ou ficar mais tempo esperando. Só que do nada as contas que tenho para pagar no final do mês me vêem ao pensamento e começo logo sorrindo quando recordo o sorriso amoroso da menina. Ela realmente merece amor e carinho. Eu sinto que posso oferecer isso.
Vai liga de uma vez, não fica ai parada vendo o tempo voar! implora a minha voz interior parecendo bem mais ansiosa que eu.

Pego o celular de dentro da bolsa e começo discando o número do cartão e levando o aparelho ao ouvido, começa chamando. Afim de dois ou três toques de chamada escuto uma voz masculina. Começo a ficar toda arrepiada.

— Grey!

— Boa noite, é Anastacia Steele! A babá que esteve em seu apartamento essa tarde... - apresso a fala meio que nervosa e gaguejando não sei bem porquê.

Ele solta um pigarro no outro lado. Suspiro começando andar de um lado para o outro igual barata tonta mais nervosa que nunca, não sei porquê, mas esse homem me deixa assim. Causa esse misto de reacções em mim.

— Há sim Anastacia, diga... - a sua voz havia mudado consideravelmente, parecia mais graciosa. Será que ele teve esse tempo todo esperando por minha ligação? - Já tem uma resposta para me dar, é isso?

— Tenho sim... - confirmo num sussurro baixo quase que falando mais para mim que para ele. - E decidi que aceito!



Gostaram?
O que acharam dessa primeira abordagem desses dois?
Será que Kate está certa? Será que José também está ajudando a guiar o caminho de Anastacia?
Até ao próximo capítulo, Lucy. 

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