Herança do Amor - Capítulo 9

Pov. Christian Grey

A noite passara sem aparição dos meus pesadelos constantes que reinam em meu sono, o tornando tão conturbado. Talvez a presença de Anastacia tivesse causado esse efeito em mim. Agora uma explicação ainda não tenho, o que sei é que ela transmite uma calma serena e fico logo me sentindo uma outra pessoa. Pessoa essa que eu era antes da minha vida ficar tão revirada e de pernas para o ar.

Ao abrir os olhos por conta da claridade que rompe pelo quarto, levanto da cama num pulo ativo e cheio de uma energia tal que até à pouco tempo desconhecia. De novo as palavras de Anastacia recaiem no meu pensamento e um sorriso aflora dos meus lábios quase que causando em mim o acordar de um adolescente redescobrindo as boas sensações da vida.

Não sei, há algo nela que me chama atenção e não é o fato de ter essa semelhança com Olivia, ela é diferente. Tudo nela, até no jeito como se move, a forma de como fala com tanta ternura para April, o jeito de como ficaram tão íntimas numa primeira abordagem, apesar da impressão. E aquele beijo? Caramba até nisso foi diferente e bom, porque senti aquela ligação. Uma ligação muito forte que me puxa numa acção gravítica para ela. Como se ambos fossemos pólos de um campo magnético esperando ser atraídos por uma única forma de maior dimensão.
Preciso urgentemente me consultar com o doutor Flynn ou vou enlouquecer de vez ao pensar nela.
Corro de imediato para o banho e tomo uma ducha rápida para refrescar esse corpo quente, cabeça tão cheia de pensamentos, pois queria passar no consultório do meu terapeuta antes de ir para a GEH.
Uma vez pronto, debruço sobre a chese do closet e calço os sapatos escuros. Só então saio pegando o iPhone do criado mudo em direção à sala. Gail estava providenciando o café da manhã com um som de música baixa e dançando distraida que nem dá pela minha presença.

— Bom dia Gail! - cumprimento ao sentar no banco mais alto.

— Oh! - ela se assusta ao virar e suas bochechas são tomadas por uma tonalidade rubra inocente. - Bom dia Christian! - pousa o prato com ovo mexido na minha frente.

— Está bem disposta hoje! - comento ao pegar a xícara para que ela a preencha com café fresco. - Está bom assim... - e levo o café mesmo fumegante aos lábios tomando um gole mesmo assim amargo.

— Dá para perceber assim tanto? - ela pergunta escondendo as bochechas coradas e sorrindo lascivo. - A alegria vai voltar a reinar nesse apartamento tão vazio. - diz ela com um brilho emotivo no olhar. - Com a chegada dessa moça, os meninos vão começar a ganhar alegria que perderam.

Baixo a xícara do café e suspiro encarando o ovo mexido na minha frente. De fato não tem nada que mais deseje no momento do que ver os meus filhos felizes e realizados. Já é difícil vê-los suspirar pelos cantos e escutar os fungos baixos de April escondida de baixo da cama só para que não a veja chorando.

Dói demais ver que todos estão abalados com a falta de quem alguém que partiu cedo demais. Dói mais ainda sentir um vazio grande nesse peito em outra hora foi tão cheio de amor. Deitar numa cama vazia, olhar para o lado ao acordar e não encontrar a presença quente de um corpo que possa aconchegar em uma noite fria. Não poder beijar e acariciar alguém que deseje.

Tudo isso tem causado uma pura solidão, me faz sentir no escuro que peço a deus que me tire desse buraco fundo. Que envie um anjo que me possa ajudar, pois não quero me perder, preciso de apoio para lutar, ou sozinho não vou vencer.

— Estou muito motivado a ver esses bons ventos entrarem por aqui! - falo com uma confiança nunca antes vista.

Uns momentos depois as portas do elevador se abrem e olho por cima do ombro com uma certa esperança em encontrar aquele par de olhos azuis, mas é Taylor. O meu segurança chegando, então reviro os olhos.

— Senhor Grey o seu carro já está pronto! - informa ele prestável.

Tomo um último gole do café e levando uma última garfada de ovo mexido à boca. Levanto limpando os lábios ao qual vou a Gail e deixo um beijo na sua bochecha em agradecimento por ter sido sempre um bom pilar nessa família, por mesmo nos vendo a destruir literalmente, nunca nos abandonou. Então é ai que sigo atrás de Taylor para o elevador de portas abertas.

— É para o consultório do Dr. Flynn! - indico ao me encostar na parede espelhada do fundo.

— Com certeza Senhor Grey! - assente carregando no botão digital e as portas fecham.

~*~

Ao chegar no edifício onde tenho as minhas sessões de terapia passo na recepção, onde uma mulher de meia idade, a assistente do meu terapeuta, me aborda questionando se teria hora marcada e lhe lanço um olhar intimidador.

— Sou Christian Grey, sempre tenho hora com o meu terapeuta! - quase que rosno para ela, para que perceba que não sou um paciente qualquer.

Ela me olha por cima dos óculos Chanel e puxa o telefone para o ouvido, talvez para comunicar ao seu superior a minha presença. Logo se seguida o desce o aparelho e diz:

— Pode entrar, o Dr. Flynn irá recebê-lo, senhor!

Passo por ela sem qualquer tipo de sorriso, e sigo por um corredor cheio de quadros de Picasso numa colecção impressionante e totalmente abstracta. O meu terapeuta abre a porta e aparece com uma expressão cordial no rosto e convida a entrar.

— John! - cumprimento ele com uma informalidade só nossa.

John Flynn é o meu terapeuta haja alguns anos, é quem melhor me conhece a nível traumático, tirando a minha mãe que apesar de ter me salvo de um mundo cruel, é com ele que melhor abro a mente, falando de determinados tormentos que assaltam a minha cabeça sempre que estou parado num único lugar, ou simplesmente dos meus pesadelos que assombram as minhas noites solitárias em meu quarto.

Ele é como um confidente que sei que irá respeitar ao máximo o sigilo das nossas conversas. Uma espécie de um diário que não apenas escuta, mas que também opina e ajuda a tornar os meus dias menos dolorosos.

— A que devo a honra da sua presença, Christian? - ele questiona já fechando a porta atrás de mim e passar a caminhar ao meu lado para sentar na sua poltrona do couro marrom.

— Eu acho que estou a ficando louco, John! - digo ao sentar na chese que ele usa para suas sessões, me obrigando a ficar deitado nela e encarar o tecto.

— Apareceu uma mulher exatamente igual a Olivia no meu apartamento ontem e a beijei compulsivamente.

Viro atenção dos meus olhos ao meu terapeuta que está de ambas as sobrancelhas arqueadas me encarando surpreso. Mãos sobre os lábios cerrado numa linha rígida, mas logo a sua boca se abre.

— Mas o que ela fazia lá, você sabe? - ele começa a sua jornada de perguntas.

— A Anastacia é a nova babá dos meus filhos! - respondo sem delongas.

Nisso sou uma pessoa muito direta. Quando tenho que falar, falo. Quando não tenho, simplesmente me finco com silêncio.

— E você beijou ela por julgar estar vendo Olivia! - confirmo que sim com um aceno breve de cabeça. - E o que sentiu no momento em que a beijou?

A sua questão me faz remeter ao ao dia anterior e lembrar o turbilhão de sensações novas que nenhuma delas se encaixa no perfil original de Olivia.

— Senti uma ligação muito forte, como se já a conhecesse a imenso tempo. - ele pende a nuca, olhar fica estreito em mim como se fizesse uma analise muito pormenorizada das minhas palavras. - O beijo foi curto, mas deu para perceber que é diferente, não senti qualquer emoção da sua parte. O seu olhar é triste, como se estivesse sofrendo dentro de uma bolha em uma constante agonia. - humedeço os lábios recordando o toque suave da sua boca na minha, o olhar azul perdido e vazio. - Eu sinto que devo protegê-la de um mal maior, John! Estarei eu ficando louco?

John muda de postura, ficando mais erecto na minha frente e isso causa em mim um inrrigecer de todos os meus músculos, entrando num estado possessivo de alerta.

— Você tirou todas essas impressões com apenas um primeiro contato?

— Sim, John! - atesto assertivo. - Estarei errado em querer isso?

Ele suspira mudando o peso de uma perna para a outra enquanto desvia o olhar de mim. Começo a ficar terrivelmente nervoso.

— Você perdeu a sua esposa recentemente, Christian! A sua cabeça pode estar baralhada e a sua mente pode estar criando uma fantasia que não existe. - estreito o olhar irritado e levanto de forma brusca. - Calma! - apela ao levantar igualmente na minha frente para me impedir de alguma coisa. - Não digo que esteja concluindo errado, mas só peço para não confundir as coisas... você não sabe nada dessa mulher, se tem família, marido ou filhos... ela pode simplesmente ter agido daquele modo embebida pelas emoções de ver seus crianças abaladas e frágeis por uma perda recente.

Não, me recuso aceitar que esse seja o motivo que me deixa assim. Jamais posso aceitar que achem que estou realmente confundindo as coisas, quando tenho a plena certeza que não é isso que sinto. Eu sei de plena convicção que não estou vendo Olivia na minha frente, que ela de fato morreu, eu mesma a vi sendo enterrada na minha frente e que aquela mulher apesar de semelhante é uma outra pessoa.

— NÃO! NÃO! NÃO! - a minha voz sai mais alta e ríspida e levo as mãos à cabeça começando a bagunçar o cabelos altamente nervoso e a beira de um ataque de nervos.

O fato de me contrariarem desse modo me torna assim um homem frustrado e em uma nova crise.

— Christian vou pedir para que se aclame, sim? - pede ele ao afastar até à porta e falar com a sua assistente. - Gisele traga um copo de água com açúcar, por favor!
Sento na chese de cabeça baixa. Mãos concentradas nas têmporas as esfregando ali em círculos e só penso no olhar triste de Anastacia, do seu modo sofredor silencioso.

— Aqui! - o meu terapeuta volta para junto de mim com um copo entre as suas mãos que nego. - Beba, Christian! - pede com educação e relutante tomo o copo de suas tomando um gole mínimo.

— Eu sei o que estou dizendo e mesmo que todos fiquem contra e que aleguem que estou fazendo deduções erradas, eu farei tudo ao meu jeito! - digo imperativo ao levantar num pulo e ajeitar o paletó.

— Mas...

Dr. Flynn ia falar alguma coisa, mas não termina, pois abandono logo o seu consultório bem furioso e Taylor assim que me vê apressa a seguir na minha frente sem questionamentos.

— Para a GEH, Taylor! - a minha ordem sai rosnada.

— Com certeza, senhor! - assente abrindo a porta da rua para mim.

~*~

Chegando na GEH, passo as portas giratório com uma expressão fria que as moças do atendimento que tanto tem o atrevimento de lançar sorrisinhos na minha direcção, nem tentam ficando estáticas e submissas me observando. Pego o elevador até ao trigésimo andar. E quando finalmente as portas abrem, começo andar encurtado para o meu escritório. Andrea logo salta de trás do balcão vindo com agenda electrónica na mão atrás de mim.

— O que tenho na minha agenda para hoje, Andrea? - pergunto com uma voz rude ao sentar na cadeira de executivo e rodar ligeiramente para a esquerda de forma a encará-la frontalmente.

Andrea desce os olhos à tela digital, junta ambas as pernas como quem está tendo um nervoso miúdo. Ok, talvez seja por minha causa, já que intimido toda a gente com o meu olhar intimidador.

— O senhor Grey tem reunião com os Dinamarqueses às 10:30 por causa da nova parceria de energias renováveis. - encosto melhor as costas na cadeira, pouso as mãos em cada lado dos apoios atento. - O almoço é com os ingleses da companhia Air Lines e mais para as 16:00 reunião com o departamento de Marketing por causa do lançamento da nova campanha da GEH!

— Okay, Andrea pode ir!

Ela assente com a cabeça me deixando sozinho. Quando fecha a porta a primeira coisa que faço é pegar no retrato de Olivia que tenho sobre a secretária e encarar com precisão o seu olhar. Mas no fundo eu só queria tirar diferenças dela para aquela Anastacia. Só que são tão parecidas, tirando o corte de cabelo, já que a minha falecida sempre foi mulher que ter cabelos abaixo dos ombros e Anastacia tem os cabelos bem acima, mais curtos e claros. O olhar apesar de azul não tem a mesma luminância. Olivia sempre foi uma mulher muito feliz, o que torna ainda mais diferente. Mas é ai que as palavras do meu terapeuta voltam assaltar na minha cabeça.

"Não digo que esteja concluindo errado, mas só peço para não confundir as coisas... você não sabe nada dessa mulher, se tem família, marido ou filhos... ela pode simplesmente ter agido daquele modo embebida pelas emoções de ver seus crianças abaladas e frágeis por uma perda recente."

— Eu tenho que parar de pensar nisso.... - digo ao pousar o retrato e abro a tampa do Macbook focando as minhas atenções no trabalho.

Porém, nem uns 2 minutos se passam e estou de novo a pensar. Levanto da cadeira a empurrando num impulso e começo andar de um lado para o outro de mãos sobre a cabeça igual um pensador.
Eu preciso de saber mais sobre ela.

Volto à secretária e pego o iPhone discando para Welch que atende afim de alguns toques de chamada.

— Senhor Grey algum problema? - ele pergunta com uma voz preocupada no outro lado da linha.

— Welch preciso que me faça um favor urgente! Quero que providencie um dossier sobre Anastacia Steele!

Ele solta um pigarro no outro lado da linha. Posso simplesmente perceber que o meu chefe da segurança esteja se questionando mentalmente por quais seriam as minhas razões. No entanto, ele é não pago para isso, mas para ser competente e acartar com as minhas ordens, já que sou eu quem paga o seu salário.

— Para quando, senhor Grey? - pergunta intrigado.

— Ainda hoje!

Informo de olhar concentrado na panorâmica da cidade. Focando mais ainda o olhar nesses carros que passam vorazes nessa estrada fora. Pessoas que parecem pontinhos circulando nesses passadiços.

— Farei o possível e logo que tenha toda a informação irei enviar para o seu e-mail, está bom assim?

— Ótimo! - desligo a ligação e deixo o celular sobre a secretária voltando de novo a mergulhar as mãos nesses cabelos rebeldes exasperado.

~*~

O dia passou quase que a correr. A reunião com os Dinamarqueses foi produtiva e parece que consegui fechar mais um negócio bem rentável. O almoço com os ingleses é que já não foi tão bom, porque eles começaram a fazer exigências demais, e sou um homem que não vive bem baixo de pressão, então meio que o negócio ficou pendente. É talvez eles precisem de um banho maria para perceber quem sou eu.

Agora me vejo na sala de Marketing a escutar as ideias da nova tendência para expandir a imagem da minha empresa. Eu realmente não entendo que tem isso de tão promissor a ser discutido, sendo que o conceito da GEH é mulher loira platinada, pálida e alta.

— Acho que é hora de inovar a imagem! - informa Anaisa brincando com o lápis na mão. - Podemos pegar em umas modelos e tentar mudar um pouco a imagem imaculada para algo mais arrojado e que chame atenção... - só que a interrompo ao levantar bruscamente.

— Que disparate vem a ser esse? A imagem da GEH é única a mais de 20 anos, não vou mudar só porque acha que estamos em Paris ou Milão para seguir novas tendências! - todos ficam a olhar para 
mim absortos.

— Mas senhor Grey, a empresa só fica a lucrar se chamar mais atenção ao mudar o padrão original... isso irá atrair novo investimento... faremos boas propagandas usando modelos diversificados e podemos mostrar ao resto do mundo que não somos somente uma empresa padrão racista.

— Você está tentando dizer alguma coisa, é isso? - a fito sério e querendo quase que gritar com ela, mas Ross me impede me colocando as mãos nos ombros. - DIGA! - grito furioso e todos ficam assustados me encarando.

Talvez esteja me excedendo, mas não gosto de ser enfrentado com tamanha audácia, ainda mais por uma mulher que está me acusando de racismo? Quando a maior prova de que não tenho complexo com as pessoas de cor se comprova tendo uma vice presidente negra, a própria da Ross Bailey, conhecia como meu braço direito aqui na GEH.

Como ela ousa me banir dessa forma tão autoritária quando eu sou seu chefe e posso muito bem encaminhá-la para o olho da rua num abrir e fechar de olhos? Questionar os padrões por mim idealizados para a minha empresa? Ou sequer me chamar indiretamente de antiquado só porque não quero seguir o seu conceito de moda?

— Grey se acalme, a Anaisa não quis dizer isso, não foi? - Ross se vira para ela que parece ter pedido a vontade de falar.


Gostaram?
O que acharam desse capítulo?
Desses pensamentos de Christian?
Acham que o Dr. Flynn está certo? Ele estará confuso?
Comentem meninas, deixem vossa opinião pois estou curiosa...
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NÃO ESQUEÇAM HOJE TERÁ MAIS DOIS CAPÍTULOS DE HERANÇA, QUEREM?
Até ao próximo capítulo, Lucy.  

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