Aluga-se Marido - Capítulo 1

Anastacia Steele

— Mas que saco! - irritada soltei um protesto ao lançar o aparelho de celular contra a espreguiçadeira da piscina.

Não sei por quanto mais   tempo ia aguentar manter a minha mentira. Aliás nem sei onde estava com  a   cabeça para alinhar nesse maldito esquema, só para enfim ajudar  Andrea  a  ter sua chance de final feliz com o seu namorado bonitão.

Mas esse era o preço a    se pagar, quando se é filha de Raymond Steele. Um empresário bem    sucedido e moderno, mas pai conservador e tradicional no que dizia    respeito à sua família. Não se vendo no papel de aceitar pular a ordem    natural de casar suas filhas da mais velha para a mais nova.

Por favor, esse é o século XXI e além disso as pessoas têm direito a opções de estado civil, okay?

Sinceramente Anastacia Steele, só você mesmo para mentir na cara dura para os seus pais, debochou a minha voz interior bastante engraçadinha.

— O que houve, Annie?! - José bem indagou ao aparecer subitamente de toalha sobre o ombro.

Ia andando de um lado    para o outro praticamente ignorando a sua chegada bem humorada. A  minha   cabeça estava um pouco cheia e tudo graças a pressão gratuita de  minha   mãe.

Carla Steele sabia    exatamente como me deixar sem menor pinta de humor e logo hoje que o  dia   havia me corrido às mil maravilhas, conseguindo assim fechar uma   grande  encomenda, se não a maior que já havia alcançado na minha   floricultura.

Caramba, isso é pontaria demais para um dia só.

— Adivinhe só... - a    minha voz saiu um pouco mal humorada, quando enfim parei na frente de    José e o mesmo vinha me encarando de braços cruzados com aquele semblante sereno. O que dava certa inveja. — A minha mãe novamente com  a   mesma conversa de que quer conhecer meu suposto marido... - revirei  os   olhos ao passar por José e então desabar de mãos sobre a cabeça  na   espreguiçadeira realmente exausta. — Não tem menor cabimento  tanta   pressão!

— É minha amiga a uma    hora alguém iria começar a cobrar pela mentira! - meu melhor amigo  logo   apontou, não ajudando lá grande coisa. — Se bem que eu sempre  fui  contra  essa ideia maluca e você bem sabe. Embora ache que seu pai é  bem   conservador e careta para o século em que vivemos... - nesse  quesito   tinha que concordar com o meu amigo. Meu pai com o plano de  casamento   era quase como um homem idade média, onde apenas só falta  escolher o   marido das filhas. Onde é que já se viu? —Mas sabe que  sempre podemos   dizer que rolou um clima e que estamos juntos. Pode ser  até que seja o   suficiente para silenciar as insistências da dona  Carla Steele!

— Você por acaso bateu    com a cabeça, José?! - praticamente me precipitei para a frente do meu    próprio corpo a ponto de encarar José com tamanha clareza. — A minha  mãe   sabe sobre a sua orientação sexual e apesar disso não constituir  um   problema, todos sabem que nós temos uma relação de irmãos  siameses.   Então meu amigo, como acha que alguém em sua sã consciência  iria cair   nessa história amadora?

— Engraçado e você acha que vão acreditar na sua de marido fictício? Anastacia acorde, não é amor!

A resposta do meu  melhor   amigo havia sido como um tapa de realidade na minha cara. E  querendo  ou  não, ele tinha total razão em suas palavras. A quem eu  iria querer   continuar a enganar com tanta frieza?

Cansada e praticamente    digas se de passagem derrotada, acabei soltando o ar bruscamente dos    pulmões e levar as mãos a mergulhar insistentemente sobre os cabelos  que   a essa altura já deviam estar uma beleza só de tão bagunçados. E    novamente a dúvida vinha martelando na minha cabeça. Quem é que iria    continuar acreditar na minha mentira de marido perfeito, se nem eu  mesma   acreditava que pudesse existir algum algures por aí?

Oh meu Deus, como eu    podia estar tão feliz em minha vida de sucesso, amando viver cada dia    com a intensidade de como se não houvesse um amanhã, transando sem  parar   com os caras que conhecia nas minhas idas à boate local e  acordar   enérgica sobre a minha cama para arcar com as consequências de  estar   sozinha. Mas ao contrário do que muitos se faziam pensar com a  cabeça   leve, levezinha, porém sem compromissos me assombrando o tempo  inteiro,   sem pressões de um algo mais que sei que na certa resultaria  na única   coisa que não vinha desejando no momento, que era uma  desilusão amorosa.

Mas não, ao contrário    disso, era obrigada a mentir, a forjar um casamento que não existia,  nem   nos meus piores sonhos, um marido que sabe se Deus nem devia haver  no   virar da esquina. Só para que meus pais liberassem a chance de  Andrea   casar de uma vez, ou a pobre coitada no andar da carruagem  corria o   sério risco de ficar encalhada como uma rocha velha a vida  toda.

Não, definitivamente não desejava isso para a minha irmã.

Mas desejando o melhor para Andrea, era o mesmo que significar ter o pior para mim.

A onde eu fui me meter!

— Sinceramente a essa    altura do campeonato, eu já não acho mais nada! E vamos por favor  parar   de falar sobre isso, okay? A minha cabeça nesse momento  precisa   urgentemente de um alívio, ou então é capaz de estourar, pois é  pressão   demais para uma pessoa só... - os meus olhos corriam velozes  de  encontro  às águas convidativas e claras da piscina. E o sorriso em  meus  lábios  voltava a renascer como uma fénix das cinzas. — O que me  diz de  um  mergulho?

José arqueia a sobrancelha me encarando como se fosse uma alienígena dentro do meu próprio corpo.

— O que foi? É tão    anormal assim querer dar um mergulho para aliviar a tensão? -  levantando   da espreguiçadeira, ia soltando o páreo que tinha em torno  do meu  corpo  para deixar saliente o biquíni de corte brasileiro que  havia  comprado  numa das minhas últimas viagens à América do sul. — Tudo bem! Não vem, vou eu!

Sem perder tempo, me    fazia avançar sem demoras até à beira da piscina. A água parecia morna    na ponta do meu pé e a vista de cima da cidade era qualquer coisa  como   uma delícia só de aproveitar, apesar da chuva que se fazia cair  sem   demoras no lado de fora a esse grande recinto coberto. Uma  vantagem de   se viver na cobertura e tê-la só para mim.

— Oras, nada eu é que    viajei! Coisa minha, Annie! - num ápice José estava do meu lado  exibindo   sua sunga de estilo californiano. Os braços alongando em  uma   pré-preparação competitiva.

José era um pedaço de    mau caminho como diziam as mulheres por aí. Detentor de uma pele morena  e   torneada como a de um atleta de alta competição, um olhar quente e    escuro como a noite capaz de devorar um corpo inteiro sem menor  piedade.   Um perfeito galã de novela, destruidor de corações alheios,  mas com  uma  cabeça complicada demais em se fazer compreender. Pois meu  amigo  até  onde sei, era louco por Jack, mas ainda assim viva dormindo  com  aquela  irritante da Tanya.

Aff, tem alguém nesse mundo que pudesse suportar aquela modelo metida a última bolacha do pacote?

— Hm sei, cá para mim está de novo a pensar em Jack! - revidei ao empurrá-lo para o lado e  rir   do seu jeito desajeitado para não cair à água antes do tempo.

— O quê? Quem aqui está    pensando em Jack, hein? Se liga, gata! - meu amigo bem tentou desviar  o   assunto ao recuperar enfim o equilíbrio e me lançar aquele olhar    trapaceiro. Pois de certo que se preparava para alguma. José não era    pessoa de dar ponto sem nó. — Um mergulho, então! Mas antes, quem    mergulhar por último paga o jantar dessa noite!

— O quê? Não! Negativo!  - bem tentei protestar dissimuladamente e em completo desacordo, mas  era   tarde demais, José já havia pulado na piscina me ensopando sem  pudores   de respingas de água fria e com trago de cloro. — Você me  paga, seu   bicha! - deixei escapar por entre os dentes inconformada com  a derrota.
 ~*~

Terminado meu demorado    banho de imersão, me fazia aproveitar dos raros minutos de silêncio  que   reinavam nesse flat para relaxar, já que dividi-lo com José, era  o  mesmo  que viver numa boate, ou na pior das hipóteses, um antro de   perdição se  assim quisermos lhe chamar.
Cada dia era um cara    diferente em quem vinha tropeçando ao acordar, ou quando muito não  tenho   a surpresa de bater de frente com alguma das suas amiguinhas  coloridas   completamente à vontade na cozinha tomando do meu delicioso  café  mocha.  Se bem que a escolha que vinha sendo mais recorrente nas  últimas  noites,  era a loira aguada da Tanya. Aquela do qual tenho  completa  aversão e  não me descia por simplesmente ser uma falsa e  cínica de  primeira  classe.

Conclusão, os vizinhos de baixo deviam achar que vivíamos literalmente em farta farra e com razão que não lhes tirava.

Revirando os olhos  para   tais pensamentos, busquei a toalha para enrolar meus cabelos  molhados e   daí seguir para closet, no qual sem perder tempo, optei por  uma  lingerie  menos sedutora e claro, meu fofo e velho moletom cinza  gasto.  Aquele  que para muitos era horrível e sem graça, mas para mim   continuava sendo  acolhedor e meu companheiro nas noites frias.

Pronta e devidamente    cheirosa dentro do possível, dar um pulo no quarto muito rapidamente    para pegar o laptop. Afinal estava morrendo de saudades da minha amiga    Kate e a única forma que tínhamos de nos mantermos em constante  contato   era via Skype. Isto, porque ela estava em Londres realizando  um  trabalho  super importante para a redacção onde trabalhava como   jornalista de  investigação.

— Vai ligar para a Kate?  -   indagou José ao aparecer com uma maçã na mão e se jogar no sofá em    forma de L sem cerimónias para iniciar uma troca relâmpago de canais  na   smart TV.

— É óbvio, seu folgado!  -enquanto aguardava pela iniciação do Skype, não perdia a chance de  lhe   mostrar uma careta. — E já que está com tanta vontade de mexer os   dedos,  o que me diz de ligar para algum take away e fazer a encomenda   do nosso  jantar? É que meu ratinho logo vai acordar e você sabe como   meu humor  fica instável se não me alimentar logo...

— Okay, okay! - José    acabou se rendendo ao erguer a mão livre e morder novamente a sua maçã    assim que pulou para fora do sofá. — Mas relembro que você é quem paga  a   conta, pois perdeu a aposta, caso tenha esquecido! - o mesmo se  fazia   passar pelas minhas costas inofensivo e com maior cara de pau  para dar   um tapa inesperado na região anterior da minha cabeça, como  fazíamos   sempre que queríamos entrar em disputas infantis. Sem demoras  revidá-lo   com a devolução de um travesseiro bem assente sobre a sua  cabeça e logo   ser agraciada pela gargalhada um nada escandalosa de  Kate.

— Oi, gente! Vocês dois    continuam exatamente a mesma piada, hein! - revirei os olhos para o    comentário da minha amiga. E José não se demorou a debruçar sobre os    meus ombros para mostrar a sua total e entusiasta satisfação.

— Barbie você está fazendo falta aqui! Quando é que volta de Londres?

— José, o jantar! - relembrei-o ao atingir o travesseiro novamente na sua cabeça. Ele    depositou um beijo no alto da minha têmpora nem um pouco afetado, para  logo pegar o telefone fixo e novamente me olhar como quem queria  saber   qual o menu da noite.  — Hm, Pizza?! Escolha você!
Encolhendo os ombros e dando uma até já quase apenas labial, meu amigo me deixou, enfim para ter uma conversa a sós com Kate.

— Agora me diga como está o clima por aí? Algum gatinho interessante do qual queira compartilhar com sua melhor amiga aqui?

Kate começou a enrolar uma mecha loira do seu longo cabelo em frente à tela e sorri breve, para então responder:

— O clima não fica nem  um   pouco atrás ao que conhecemos de Chicago. Okay, talvez um pouco  mais   frio e às vezes bastante nublado o que torna os dias mais curtos  por   aqui. - ela revirou os olhos como se sentisse tédio de estar  sozinha num   lugar assim. E como a compreendia tão bem. — Quanto aos  gatinhos,  minha  querida Anastacia... sinto dizer, mas nem tempo tenho  para ficar  de  nariz no varejo dos machos. Além de que as pessoas daqui  são muito  de  nariz em pé, igual a realeza britânica. E a segurança?  Nem lhe  conto,  mas está de uma loucura só!

— Fiquei sabendo que  teve   um atropelamento na frente do parlamento britânico um dia dessa   semana!  Que gente sem noção! - minha amiga concordou comigo com um   movimento de  cabeça.

— Agora que as ladys já    tiveram seu momento de estrelas da noite, é minha vez de ter um papo    recto com a minha loirinha! - José avançou sem pudores para o sofá e  arrancou literalmente o laptop das minhas mãos, me obrigando a ficar  de   queixo caído para a sua petulância sem igual. — O que foi? Não me  olha   assim que não sou mon cherry, muito menos um Rafaello que você  possa   degustar, amor mio! Apesar de saber que sou um baita de um  gostoso para   caramba... - mas Kate interrompe a cena épica de  exibicionismo de José   com uma lábia só.

— Oh olha ela a se fazendo ao martelo! Saí bicha, saí! Deixa eu ter meu papo com a minha amiga Ana!

— Já pedi para não me chamar de bicha, sua bitch! Assim falando vai ofender a minha santa das lantejoulas!

Tanto eu quanto Kate    desatamos a gargalhar que nem duas perdidas. José era qualquer coisa    como uma boa terapia de risos incontroláveis.

— Aí para socorro assim    vou ter overdose de riso! - supliquei com as lágrimas ameaçando meus    pobres olhos e me sentir mais quente que quando me encontrava próxima  do   derradeiro orgasmo.

— Sorte, é uma overdose saudável! - Kate bem tentou sem sucesso se conter ao riso incontrolado.

— Já chega mocinhas! Se    controlem, ou eu vou ter que descer em meu lado macho alpha! - só que  ao   invés das palavras de José nos ajudarem a recuperar o fôlego  castigado   pelo riso, só nos fazia gargalhar ainda mais e pior altivas. 

— Pronto, pronto eu parei... juro! - imediatamente levantei a minha mão rendida com a barriga a doer e não era fome com certeza.

Meu amigo, satisfeito por enfim ter recuperado a normalidade do caos inicial, logo começou a    fazer muitas perguntas descabidas para Kate que desenrolou em básicas respostas que não o deixavam completamente satisfeito. Afinal José  não   era pessoa de se contentar com pouco. E a sua curiosidade só se    alimentava com bons e grandes babados. Só que quando o rumo da  conversa   enfim mudou para ele, a animação imediatamente perdeu todo o  vapor.  José  já não parecia mais eufórico e excitado por novidades como  antes.

Afinal, o nome Jack Hyde ainda era um assunto intocado.

Imediatamente minha amiga vinha trocando olhares comigo e encolhendo os ombros, olhei para    José que parecia fechado em copas. Se não fosse a campainha a  salvá-lo,   juro que iria ainda tentar puxar pelo fio desse novelo.

— Já volto, amiga!

Kate acenou com a mão  um   até já e levantando do sofá, fui atender a porta sem demoras. Do  outro   lado estava o entregador da pizza que José havia encomendado e  a   recebendo com um sorriso, rápido me fazia entregar o dinheiro com  um   extra de gorjeta generosa para o rapaz que feliz da vida agradeceu  ao   ser dispensado. José havia caprichado no ponto ao lembrar de meu    favoritismo fanático por pizza, pois o aroma que me fazia chegar ao    nariz era de ir aos céus.

Ao retornar à sala  como   se pisasse sob nuvens e aproveitei a mesa de centro para usá-la  de  apoio  para a nossa gordice. Ao contrário de mim, José parecia  muito   concentrado na sua conversa com Kate. Ambos suspeitos e  conspiradores   demais para o meu refinado gosto. O que automaticamente  ateou o meu   sexto sentido de que o assunto que debatiam era sobre mim.
Levando as mãos à cintura e chinelando o pé no tapete persa da sala, lançei um olhar  sério   para José que imediatamente ergueu a cabeça inocentemente,  rodando nas   suas mãos, o laptop na minha direcção para com isso ter o  privilégio  de  ver minha amiga engolir em seco.
Okay, minhas suspeitas estavam certas minha gente.

— Posso saber o que os dois tanto conspiram nas minhas costas?

— Err, que bobagem, Annie! Ninguém aqui está conspirando contra você... - José tentou se    explicar, mas parecia enrolado demais para estar dizendo a verdade.

— Mentira, José! - contestou a minha amiga sendo sensata pelo menos não omitindo a  verdade. — Ele estava a me a contar sobre aquela sua mentira de marido  e   falso casamento... - mas nem deixei Kate terminar que já ia  soltando  os  cachorros em José.

— Caramba, José! Já  falei   que esse assunto não lhe diz respeito e só a mim pertence! Dá  parar de   ficar abrindo a boca desse jeito o tempo inteiro? Está  querendo que  isso  vá chegar nos ouvidos dos meus pais?

— Calma, Ana! - Kate bem tentou colocar panos quentes no outro lado da tela.

— Calma, Kate?! -  estava   mesmo frustrada. Era pressão demais e meus amigos pareciam  não   compreender. — Vocês não tem noção do inferno que é ter um pai    conservador que nem o meu e 
depois tem Andrea que está louca para    casar... eu me sinto como a empata fodas da família!

— Também não é para tanto... - revirei os olhos. — Além disso, eu pensei que você já tinha    esquecido essa história louca de arrumar um falso marido...

Respirei fundo para    recompor os meus nervos de aço. Não era justo descarregar meu    descontentamento sobre meus amigos. E apesar de achar que José agia de    forma errada, não o podia tratar assim, ele era meu pilar. Era sempre  a   última pessoa a quem devia julgar.

— Desculpem gente... - baixei a cabeça exasperada ao sentar no sofá.— Eu não devia falar  assim   com vocês que são meus melhores amigos e as únicas pessoas que  estão   sabendo dessa minha loucura além de Andrea, é claro. - José  passou a mão   sobre meus ombros compreensivo e Kate sorria solidária no  outro lado  da  tela. Oh a vontade que tinha de abraçá-la agora.— E na  verdade sim,  eu  continuo com a ideia fixa de continuar com a mentira.  No fundo tenho   esperança de encontrar a pessoa perfeita para  desempenhar esse papel.

Será que tinha mesmo?  Às   vezes tinha dificuldade em perceber se realmente algum dia ia   conseguir  achar esse alguém e se mais que tudo teria coragem de fazer   valer meu  plano na real oportunidade ao apresentá-lo aos meus pais.   Céus, se meu  pai perceber que é essa história é toda mentira, nem sei  o  que faria de  mim! E do coitado? De certo que de um corretivo não  teria  como 
escapar.

Você é um perigo ambulante, acusou a minha voz interior e eu já vacinada para os seus ataques de consciência pesada.

— Bom você sabe a minha    opinião, mas se é isso que você quer... Então só posso dizer para que    conte com meu total apoio. E se eu ficar sabendo de algo, eu digo  para   você! Vai que com meus contatos eu fico sabendo de alguma coisa  que   possa ajudá-la...

— Isso seria de uma bela ajuda, sim!

Uma luz no fundo do túnel seria tudo o que mais vinha desejando no momento.

— Sem querer  interromper   as ladys da minha vida, eu vou me retirar e atacar a pizza  gostosa que   está implorando por devorá-la bem à minha frente. - José  não demorou em   passar o laptop para as minhas pernas e com maior  descaramento abrir a   caixa da pizza me deixando logo de água na boca.

— Não faz isso comigo, bicha! - Kate bem implorou de dorso da mão sobre o alto da cabeça.

— Faço, sim! - ele  levou   um pedaço generoso à boca e começou a degustar da pizza sem  pudores ao   atentado alheio. — Hm, que delícia... quer um pedacinho,  Kate?!

Minha amiga cruzou os braços emborrada e eu apenas comecei a gargalhar da sua figura épica.

— José guarde um pedaço para mim, hein?! - apontei o dedo na direção do meu amigo.

— Se eu fosse você não confiava nessa ai!

— Eu ainda tenho o senso de confiar nas pessoas, sabe...

Minha amiga soltou uma    risada contagiante do outro lado da tela e face a isso acabei por  força   da circunstância a ter que me despedir dela para ir brigar por  minha   pizza, ou como Kate dizia iria ficar sem nada para jantar e  justo hoje   que havia sido eu a pagar a conta.

~*~

Meu despertador havia    tocado meia hora antes do horário que todos os dias fazia o favor de    reprogramar. Mas como ele fora tão simpático ao me acordar aos  tropeços,   não via menor chance de recuperar o sono reparador que não  cair num   duche e me preparar para mais uma jornada de trabalho na  floricultura.   Aquela que diferente de tudo o que vinha acontecendo em  minha vida,   ainda era o meu maior prazer.

— Vá lá Anastacia, sem    preguiça! - dizia para mim mesma ao arrastar meus passos zombie até ao    banheiro e bocejar involuntariamente vezes sem conta.

Mas pudera acordar  cedo   era um sacrifício em tanto. Me doía logo a cabeça só de imaginar   aqueles  que o faziam mais cedo do que eu para usufruir dos treinos   matinais, ou  quando não muito buscar por pegar transporte público para   fazer face às  suas rotinas diárias.
Credo!

Enquanto deixava a  água   do duche aquecer, ia aproveitando a chance para checar o  celular   novamente no quarto e tirar a meio a esse trajeto, o moletom  velho que   novamente havia acabado por dormir em mim vestido. Mas como  sempre não   havia nada de conclusivo no aparelho, pelo menos, não com o  que me   preocupar, o que de certo era um favor que me faziam, quando  ainda me   sentia literalmente no país das maravilhas do sono.

Sorrindo com o meu    patético pensamento, regressei uma vez mais para o banheiro para então    tomar o duche sem mais interrupções. Após terminá-lo, um tanto mais    demorado do que aquilo que havia programado inicialmente, é certo.  Vesti   uma lingerie negra e rendada da calzedonia, algo que de certo  modo   sempre fazia realçar meus altos atributos físicos. Optei por uma  blusa   sem mangas rosa salmão e decote em v que deixava bem à mão de  semear a   beleza tonificada do meu busto. Uma negra saia travada da  Armani   ligeiramente acima do joelho e para concluir a minha  indumentária,   calcei as minhas sandálias favoritas desenhadas em  exclusivo por minha   talentosa mãe.

Sim, eu não contei,  mas   sou filha de uma estilista de calçado mais famosa de toda a cidade  de   New York, mais precisamente por toda a elite do Upper East Side  em   Manhattan.

Arrumando os cabelos  num   apanhado esquerdino em frente ao espelho, coloquei os meus  brincos  mais  simples, mas com ótimo vislumbre clássico. No pulso optei  por usar  a  pulseira da pandora, pelo rosto passar uma maquiagem que  realçava os   meus traços finos, mas sem grandes exageros e contornar os  lábios com  um  fabuloso batom tom nude.

Estava pronta para    enfrentar meu dia, não fosse ter o desprazer logo cedo de cruzar com    Tanya na cozinha bebericando, imaginem só, o meu café mocha e em  trajes   que não lembrava nem ao menino jesus.

Quer dizer, sem trajes!

— O que você faz aqui  seu   esqueleto de cabelo, se não lembro de tê-la visto entrar ontem?  - indaguei com um sério desprazer em revê-la logo pela manhã. — Há  não   espera! Você entrou pela janela com um cabo de vassoura e por isso  está   aqui justo na minha cozinha tomando o meu café?! 
À faça-me o  favor... -   acabei por ser cínica ao tirar das suas mãos a xícara de  café e  receber o  seu olhar de fogo.

Tanya era uma daquelas    pessoas que se visse na rua, sempre preferia fingir que não a  conhecia.   Pois não passava de uma modelo ambiciosa, bonita, alta e  loira, mas   oportunista tentando semear a discórdia na minha amizade  longa e de anos   com José.

Por outro lado,  entendia   o seu ciúme doente, afinal eu por todos os meios tentava  sabotar os   seus planos de conquistar meu melhor amigo que vivia na  consequente   divisão entre amar alguém como Jack e ser feliz, ou ser  enganado por uma   desprezível cobra peçonhenta como Tanya e ter uma  vida inteira de  plena  infelicidade.

Lamento, mas não gosto dela e fim da história.

— Impressão minha, ou você acabou de me chamar de bruxa? - revirei os olhos ao passar por  ela   que ainda parecia estática com a minha presença relâmpago e liguei  a   máquina para tirar um mocha sem demoras. — Mas é muita petulância  sua   Anastacia, hein?! - Tanya contornou a cozinha exibindo o seu  talento   para caminhar em passarela e quando estava pronta a me virar  com um novo   mocha na mão, ela acrescentou bastante segura de si: —Você  ainda vai   ter que me engolir muitas vezes, ouviu bem?

— Ou, o quê? - atrevei a indagar ao dar um gole no meu delicioso mocha fumegante e  observá-la  com  um desdém de medo que foge à légua.

— Não me provoca, sua... sua...

— Sua, quê? - afastei a xícara de café dos lábios e a depositei sobre a bancada da cozinha,    antes que me desse uma brilhante ideia de queimar seu rosto de falsine e a enfrentei a peito aberto.

— Ei calma lá, gatinhas!

José imediatamente aparecia na cozinha apenas de cueca boxe e vinha se intrometendo no  meio   de nós duas. Imediatamente nos separando de um súbito embate de  leoas em fúria.

— Não acham que está cedo demais para começarem a brigar? Caramba, desacelerem esse freio, gatas!

— Quem vai desacelerar o freio aqui é você José, entendeu? - apontei o dedo na frente do  nariz  do  meu melhor amigo bastante chateada. — Enfim, falamos depois!

Praticamente colidindo    no ombro do meu melhor amigo e me fazia pegar da bolsa e o celular no    caminho para bater com força a porta do flat nas costas. Ter a sorte  de   apanhar um elevador disponível e descer num ápice pouco demorado  até ao   térreo.

Tom, o porteiro de    serviço, imediatamente logo dar os bons dias com uma disposição sempre    tão contagiante e educadamente lhe oferecer um sorriso ainda que    forçado, para no imediato recorrer à descoberta do meu Mini Cooper  cinza   logo à vista.

Em poucos minutos    enfrentar a avenida mais movimentada da cidade de Chicago ao som de    sirenes de alarme recorrente no derradeiro horário, buzinas  impacientes   de outros automóveis face ao encerramento do sinal justo  no ponto em  que  me fazia desejosa de chegar logo na Flower Steele.  Trocar alguns   olhares com o relógio do painel electrónico e saborear o  som do costume   de James Arthur cantando Naked, afim de alentar meu  começo de dia.

Depois de alguns  minutos   generosos presa no trânsito caótico, enfim estava entrando na  Flower   Steele e para surpresa minha quem estava no atendimento público  era Mia,   a irmã mais nova de Kate, quando supostamente ela deveria  estar   entrando mais tarde.

— Bom dia, Ana! - cumprimentou ela com uma boa disposição matinal ao depositar uma  grande   caixa decorativa com rosas tingidas de azul.

— Bom dia, Mia! Não era para Lyssa estar abrindo essa manhã a loja? - passei a mão sobre os cabelo num gesto costumeiro.

— Era sim, mas a Lyssa  me   mandou mensagem bem cedo avisando que a mãe havia passado mal na    clínica de repouso e que então não teria como vir... - explicou ela ao    regressar para trás do balcão e pegar o celular.

Lyssa era minha outra    funcionária, aquela a que via com bastante competência no atendimento. Muito embora, lamentasse profundamente o facto de sua mãe ter sofrido  um   AVC a cerca de uns 3 anos e desde então ter ficado praticamente limitada a uma vida dependente de terceiros. No caso dependente da generosidade da filha.

— Mesmo assim você não pode ficar sozinha cuidando de tudo! Por favor chame alguém da equipe das estufas para dar uma auxilio aqui na frente de loja!

— Relaxe, Ana! Eu dou conta de todo o serviço sozinha! Além de que não tendo gente comigo,    sobra mais tempo para apreciar os gatinhos do aplicativo do tinder e  os do mundo real que são qualquer coisa como suculentos... - ela rodou a caneta com o logótipo da minha empresa entre os dedos e mordeu o  lábio   inferior descendo o olhar ao pequeno ecrã do celular para soltar  um   gritinho histérico.

— Só peço para que não perca o foco, okay? Isto aqui é um trabalho de responsabilidade e  temos   que manter a boa imagem que a Flower Steele representa no  mercado! - não tardei a relembrá-la. — 

Enfim qualquer coisa estarei na  minha  sala...

Sem demoras, Mia  mostrou   continência num gesto bastante pitoresco e face a isso,  avancei para a   minha sala com a cabeça a fervilhar sobre a ideia do  aplicativo  Tinder.

Será que encontraria fácil um marido nesse aplicativo tão famoso?

 
Gostaram? 

Deixem os vossos comentários e desde já peço desculpas, pois era para ser publicado ontem o capítulo, mas ocorreram uns imprevisto de última hora. O capítulo está também disponível no Wattpad! 
Até ao próximo capítulo, Lucy.

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